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Terça-feira, 15 de Setembro de 2009

  

 

O Senhor Palomar gosta de desafios. Contactado pela Porto Editora a fazer uma entrevista a uma autora que, objectivamente, não conhecia até ali, mostrou alguma resistência. Mas nada que não se tenha ultrapassado com o empréstimo de livros antigos e a leitura deste último O sangue da terra, que a editora rapidamente fez chegar ao Senhor Palomar.

 

Sofia Marrecas Ferreira reside em Londres e O sangue da terra é o seu 5.º livro. Foi-lhe atribuído o Prémio Máxima Revelação, pela obra Mulheres de Sombra. É mais uma das transferências Asa-Porto Editora, levadas a cabo pelo editor Manuel Alberto Valente. 

 

O lançamento da obra é hoje, pelas 19h00, na Casa do Alentejo, em Lisboa, com apresentação da obra a cargo de Francisco José Viegas e Helena Vasconcelos.

 

Sofia Marrecas Ferreira, onde estava no 25 de Abril?

No 25 de Abril, estava em Lisboa. Tinha 13 anos, saí às 8h30 para ir para o Liceu, vi um chaimite que passava ao fundo da rua, um homem gritou: - Volte para casa, volte para casa, é a Revolução! E eu voltei para casa onde passei a manhã toda a ouvir as informações na telefonia com a minha família. Mais tarde fui para a rua e, como milhares de Portugueses, desci a Avenida da Liberdade.

Considera-se uma escritora para um público feminino ou vê-se como (tendencialmente) feminista? O Senhor Palomar explica: todos os seus livros têm mulheres de forte personalidade, mas os homens são um pouco guiados pelas circunstâncias, mostrando traços de carácter menos positivos. Tem um visão maniqueísta dos dois sexos?
Não escrevo para um público especialmente feminino nem me sinto "tendencialmente" feminista. Escrevo apenas sobre o que vejo e como sinto o que vejo. Ou seja: escrevo sobre uma sociedade portuguesa que me parece ainda profundamente matriarcal, em que as mulheres permanecem figuras centrais.


Quanto aos homens, nos meus livros, sim, talvez sejam mais distraídos. Passam e nem sempre se detêm, trazem com eles o Amor e a Fantasia, são poetas e provocam paixões. Talvez umas tenham os pés mais na Terra e os outros... a cabeça no ar. São por isso complementares. E não há maniqueísmo.

 

 

Onde e como decorre a sua oficina da escrita? Ainda escreve à mão? Tem uma caneta especial? Começa a escrever a determinado dia?

Escrevo num espaço de cinco metros quadrados cor-de-framboesa, com vista para árvores e jardins, como uma esferográfica "uni-ball" preta, sete horas por dia, cinco dias por semana. Inexoravelmente.



Como vê o panorama literário português? Quais os autores que lhe sugerem mais afinidades? O seu editor já a referenciou como próxima de Rosa Lobato Faria.
O panorama literário português é dinâmico e os autores contemporâneos por que sinto maior afinidade são Dulce Maria Cardoso, José Luís Peixoto, Gonçalo M. Tavares, Lobo Antunes, Agustina, Saramago.


Sofia Marrecas Ferreira é mais um nome que se junta às outras transferências levadas a cabo por Manuel Alberto Valente. Como vê, enquanto autora, o aperto do cerco e a feroz concorrência num sector que sempre esteve mais próximo do apanágio dos brandos costumes portugueses?
Bem sei que é necessário para certas casas - mais parecidas com supermercados - venderem best-sellers estrangeiros com que não correm riscos nenhuns o que até lhes permite publicarem autores portugueses. Normalmente, quando há concorrência, há mais procura e mais qualidade. Esperemos que haja assim cada vez mais gente que lê e que os autores portugueses passem a ter maior relevo na paisagem editorial e, consequentemente, sejam mais divulgados.


O Senhor Palomar nota que conhece bem a A2. Os seus livros passam-se predominantemente entre Lisboa e o Alentejo, a que O Sangue da Terra não se escusa. Como vê um e outro espaço geográfico na sua obra?
Efectivamente, a A2 não tem segredos para mim. O meu Alentejo são vilas, aldeias, lugares pequenos, casas, tabernas, cafés, igrejas, com a eternidade das searas como pano de fundo. O que proporciona a criação de um espaço mágico e livre, onde quase tudo é possível. Lisboa, mais formal, é uma cidade onde tudo se encontra exposto e confrontado ao julgamento e à conformidade dos códigos e dos valores predominantes, aí onde os gestos e as vontades têm menos liberdade de acção e menos espaço para se exprimirem.


Neste Sangue da Terra, há uma presença constante de uma personagem, aparentemente decorativa, mas que no final cresce em protagonismo para dar lugar a um episódio verdadeiramente macabro, que mais parece saído da pena do Stephen King. Onde foi buscar aquela ideia (mas não diga qual, que esta entrevista não pretende dar spoilers)?
 Essa personagem que pressentiu como "decorativa" tem características que a aproximam e a confundem com o abismo e o divino. Tanto pode ser uma ruína como um monumento. Mas é sobretudo a encarnação da solidão que leva à loucura. Quanto à ideia macabra foi a personagem que a teve. Não fui eu. O Senhor Palomar bem sabe que, a partir de certa altura, na escrita, os personagens adquirem vida própria, tornam-se independentes e seguem o seu caminho. Eu fui atrás dela. E olhei pelo buraco da fechadura. Depois? Contei o que vi. Só isso.


publicado por Senhor Palomar às 08:40
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