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Terça-feira, 1 de Setembro de 2009

«O Senhor Palomar mudou de casa. Mudou-se de livros e bagagem, conforme ele próprio escreveu. No entanto, os seus Calvinos não saíram do lugar e a sua biblioteca não foi cuidadosamente desintegrada em caixas de cartão talvez catalogadas por ordem alfabética. Não chamou uma carrinha de transportes urbanos para levar a sua mesa de trabalho ou o computador onde agora acede ao seu blogue através da Sapo. Mudou de morada sem mudar de casa, enquanto continua a esquivar-se a dar a resposta que muitos tentam adivinhar: afinal, quem é o Senhor Palomar? Não deve ser carteiro, apesar da prontidão com que entrega as respostas às cartas que recebe. Não deve ser mágico, apesar dos seus truques de prestidigitador e a arte de nos iludir mesmo diante dos nossos olhos. Também é pouco provável que seja advogado, engenheiro do ambiente, farmacêutico ou talhante, apesar de se encontrarem por toda a parte candidatos teóricos para dar corpo a este nome. Como o talentoso escritor que se veste de livreiro com uma t-shirt cor de vinho na Bulhosa e quase cora quando lhe perguntamos se é o Senhor Palomar. O senhor de óculos que tem sempre uma pilha de livros da Quetzal, Assírio & Alvim, Tinta da China e Dom Quixote por companhia na mesa do café antigo da avenida movimentada. Aquela figura discretamente interessante e muito interessada que aparece nos lançamentos de livros para que é convidada. Mas há mais. No mundo real, onde a bi-dimensionalidade do Senhor Palomar sabe a pouco, porque se deseja que ele tenha corpo, pele, cheiro, voz e, claro, dois olhos atentos e brilhantes para ler e duas mãos decididas e generosas para segurar livros e escrever posts, o Senhor Palomar justifica telefonemas do género: Ouve lá, já sabes quem é o Senhor Palomar? Ou SMSs a interromperem um jantar num restaurante em plena noite de Verão, aventando uma nova hipótese. Ou posts como este e tantos outros (basta consultar, no novo site, a etiqueta agradecimentos e referências ao Senhor Palomar). Entretanto, já foi Francisco, Pedro, Paulo, Hélder, outra vez Pedro e Tiago, entre outros (acredito que a lista de nomes próprios a que se seguem apelidos mais ou menos conhecidos do meio editorial, jornalístico e literário) seja muito mais extensa. Como poderia ser o seu retrato robot, se ninguém o viu no local do crime, onde os livros são as suas armas? Que idade terá? Usará óculos redondos, correspondendo ao estereótipo do intelectual que cansou a vista precocemente por ter devorado tantos livros? Esconderá uma barriga proeminente, por estar demasiado tempo por dia sentado numa cadeira ao computador a escrever ou num sofá a ler? Há quem diga que trabalhou numa agência de publicidade (custa a acreditar, parece demasiado culto para isso). Ou em várias livrarias. Ou que trabalha numa editora. As perguntas crescem. A sua casa verdadeira será em Lisboa? Que número calçará? Qual o livro que salvaria de um incêndio fatal na sua biblioteca? Gostará de camarões-tigre com molho de lima e gengibre? Será guloso? Será Virgem ou Aquário? Terá animais de estimação, para além dos livros? Algum cabelo branco? Uma tatuagem verdadeira com o sinal de pontuação preferido? Andará a escrever um livro em segredo? Quantos blogues teve antes deste? Qual será o seu maior defeito? Mostrará os seus textos antes de serem publicados à Senhora Palomar (e por falar nela, qual seria o seu nome literário de solteira)? Ouvirá Bossa Nova, ópera ou hard-rock, ou todos eles? Dirá mais palavrões por dia do que o Maradona? Saberá falar e escrever e ler fluentemente em italiano? Alguma vez já lhe terão perguntado se era o Senhor Palomar? Ele terá mordido a língua três vezes antes de responder? E terá mentido ou largado uma sonora gargalhada por ter sido desmascarado? Num cuidado exercício que também é de marketing, o Senhor Palomar recusa-se a tirar a máscara e cultiva o mito. Dança com cada um dos seus leitores e com todas as letras do alfabeto. Edita dezenas de posts por dia, muitos deles com a morada de outras janelas de outras casas que não a sua, e pelo meio distribui habilmente outros textos de cariz mais pessoal. A sua modéstia, necessariamente falsa como todas as modéstias, dilui-se na amabilidade elegante com que escreve sobre uns (escritores ou bloggers) e outros (livros ou editoras). Tem uma voz singular e única, inaudível mas bem legível. Fala-nos de si próprio ao ouvido, como de uma terceira pessoa. Abre revistas e jornais estrangeiros sobre livros e literatura para nós, como um mordomo zeloso serve as notícias do dia numa bandeja reluzente. A sua educação e diplomacia transformam-se em vénias imaginárias para autores e leitores. O verbo sensibilizado e adjectivos como infinitos ou humilde fazem parte do seu vocabulário corrente. Pisca-nos o olho enquanto se confessa humano, tão humano, que admite ser falível, errar e ter dúvidas. De vez em quando, dá-nos a ilusão de que espreitámos no buraco da fechadura de sua casa e descobrimos quem ele é. Talvez não revele a sua identidade para se sentir mais próximo de nós, leitores curiosos, anónimos ou conhecidos no meio. Em férias, o José Mário Silva imaginou ter avistado o seu homónimo numa praia. Em Lisboa, a Isabel Coutinho temeu que a grande revelação da sua identidade tivesse ocorrido na semana em que esteve desconectada do mundo virtual. Do outro lado do Atlântico, a Mónica Marques tem fantasias quem sabe vagamente eróticas com a dita personagem. E o Pedro Vieira, não o conhecerá realmente? A Maria João Nogueira e o Pedro Neves, da Sapo, terão dado a sua palavra de honra em como não revelariam o seu nome à comunidade, nem mediante um suborno virtualmente irresistível? Há uma engraçada teoria que diz estarmos sempre a apenas uma ou duas pessoas (talvez três, em casos excepcionalmente mais difíceis) de conhecer alguém famoso. Seja o Dalai Lama, a Madonna, a Paula Rego, o Philip Roth, o Cristiano Ronaldo ou o Herberto Helder (por muito difícil que possa parecer). Alguém que conhecemos ou a quem poderemos aceder, se tentarmos, conhece a pessoa em questão, ou alguém que a conhece. Em relação ao Senhor Palomar, este raciocínio não se aplica. Fechado em casa e no seu anonimato, condenado a uma solidão alegremente preenchida por muitas (cada vez mais) centenas de visitantes diários, vive a sua fama em segredo. Não sabemos a quantas pessoas estamos de o conhecer ou se já o conhecemos sem saber. Reparei agora que ainda não justifiquei o título deste post. Repito: acho que já sei quem é o Senhor Palomar. É aquela pessoa a quem apetece pedir: por favor, nunca revele a sua identidade. Há meses que desejamos saber quem ele é, como se não chegasse ele ser como é. Esquecidos de que, muitas vezes, o maior desejo (passe a aparente perversidade deste pensamento) é que o desejo não se realize. Ao pé de tantos exercícios de lógica complementados pela sempre indisciplinada imaginação, em que o Senhor Palomar podia ser quase tudo e todos, a revelação do seu verdadeiro nome talvez (repito, talvez) soubesse a pouco. Porque este Senhor Palomar, tal como o outro que lhe emprestou o nome, parece respirar muito melhor à sombra das árvores transformadas em livros de ficção.»

 

 

Publicado aqui.



publicado por Senhor Palomar às 19:48
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2 comentários:
De Maria Neves a 1 de Setembro de 2009 às 22:38
Parece que o inspector Jaime Ramos está, de momento, sem trabalho. Não quererá pôr-se a caminho para desvendar este mistério?


De "Viajante" a 2 de Setembro de 2009 às 01:07
Concordo completamente, e eu próprio já lho disse, a ele: "o Senhor Palomar é aquela pessoa a quem apetece pedir (diria "exigir") : por favor, nunca revele a sua identidade. Há meses que desejamos saber quem ele é, como se não chegasse ele ser como é".

Justamente: não se conhecer a sua identidade faz parte da sua identidade.
Ele calha de ser o único blogcaso de anonimato com sucesso - e isto é precioso.
Nestas especiais circunstâncias, o melhor que há a fazer é o seguinte:
a) da nossa parte, continuar regularmente a cultivar esta simulação de que muita gente procura avidamente descobrir e revelar quem ele é;
b) ainda que algum de nós o descubra, deverá abster-se eternamente, estoicamente, de praticar o humano, como chamar-lhe?: pecado? da vaidade, quer dizer, o dificilmente reprimível desejo de um dia destes vir a público, numa qualquer cerimónia de aparato, mostrá-lo, revelar irrefutavelmente quem ele é;
c) da parte dele, Palomar, continuar a abster-se eternamente, estoicamente, de praticar o humano, como chamar-lhe?: pecado? da luxúria, quer dizer, o dificilmente reprimível desejo de um dia destes vir a público, numa qualquer cerimónia de aparato, mostrar-se, revelar definitivamente quem de facto é.

Como ainda disponho de 3090 caracteres, quero apelar a todos os leitores do blog que, já agora, exijam como contrapartida ao Senhor Palomar que, se deseja manter o saudável mito do anonimato, não fale de futebol.
Apelo-vos, e "-lhe", isto com a mais completa isenção, porque, diferentemente de Palomar, sou adepto de um clube de uma cidade da qual, ao contrário da Freguesia de Benfica, houve nome Portugal - e portanto estou à vontade para, numa perspectiva historicamente superior a estas ninharias, reclamar de todos nós, os adeptos de Palomar, que lhe reclamemos que se deixe dessas ninharias da Freguesia de Benfica, para que não fique a parecer-se com certos blogs que, a gente vai lá, e da Literatura só têm o nome, apenas se têm ocupado de ninharias, coisas sem eternidade, coisas que daqui por um mês acabaram, e depois? a Literatura não será mais eterna e interessante do que o futebol e essas ninharias?!
Sim!, ninharias! porque essa coisa dos 8 -1 ao V. Setúbal, não tardarão mais duas ou três jornadas, pode muito bem passar a ser uma mera ninharia, e essa outra coisa das eleições, daqui por duas ou três jornadas, tal como as eleições anteriores, será inevitavelmente uma ninharia.
E ainda bem!, diz-me a minha consciência democrática, ainda bem que estas coisas da política são, como as do futebol, transitórias, ainda bem que são ninharias que duram poucas jornadas. Isso é que é o normal no futebol e na política - são o normal, são coisas práticas, corriqueiras, e ainda bem, mas estas coisas normais, para serem eficientes, práticas e úteis às pessoas, têm de saber conservar-se no estatuto de corriqueiras ninharias.
E, justamente porque são pelo comum das pessoas colocadas nesse alto estatuto, têm de humildemente saber assumir-se como coisas sem eternidade, relativamente às quais não se justifica colocar em risco as grandes coisas de valor singular e poético, de interesse geral, como é actualmente a identidade do Senhor Palomar.
Como ainda disponho de 1162 caracteres, posso acrescentar: o mistério da identidade de Palomar, agora que posso dispor de 1078 caracteres, é, no actual contexto em que o nosso país que, dispondo apenas de 1001 caracteres, atravessa porém um período de dramáticos fogos florestais - e refiro-me apenas a este aspecto para não gastar muitos dos apenas 862 caracteres que me restam - confrontado com os 8-1 do clube da Freguesia de Benfica e que, não obstante, a preocupação é não terem placard para tantos golos, valha-nos Jesus!, com esta coisa do TGV para os espanhóis, quer dizer, TGV com apenas 511 caracteres disponíveis?! vão gozar com outro!
Lá o TGV Lisboa-Madrid, ainda vá, para não ficarmos isolados da rede europeia. E o do Porto a Vigo e à Corunha, tudo bem: ficaríamos com duas ligações ao exterior, e o aero-Porto a servir.
Agora, isto do mistério da identidade de Palomar: isso é coisa da nossa actual identidade cultural nacional, da qual não devemos prescindir, e pela qual devemos lutar até ao último dos 37 caracteres ainda disponíveis!!! Com pontos de exclamação e tudo! ora essa!!



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